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Dos fadistas e galegos : os portugueses na capoeira / Carlos Eugénio Líbano Soares

Autor: SOARES, Carlos Eugénio LíbanoIn: Análise Social. Lisboa. V.32,s.4,n.142 (1997) , p.685-713Idioma: Português.Assunto: IMIGRANTE CAPOEIRA CONDIÇÕES SOCIAIS DADOS ESTATÍSTICOS Localização e Cota : P.46 Resumo: A presença de imigrantes, principalmente portugueses, e homens brancos nas maltas da Corte do segundo reinado era sinal da riqueza e da complexidade da cultura da capoeira no Rio do século XIX. Hábil o bastante para sobreviver a décadas de feroz perseguição e flexível o suficiente para incorporar os elementos mais díspares e de origens mais diversas, a capoeira demonstrou nestes anos a sua força como 'porta de entrada' na cidade para estranhos, forasteiros e desamparados. Italianos, argentinos, paraguaios, alemães, norte-americanos, chilenos, franceses, espanhóis, uma babel de nacionalidades diversas escondia-se nas sombras da capoeiragem. Construída por africanos em terras brasileiras, a capoeira vai ter o seu destino marcado pelo carácter cosmopolita da capital do império. Podemos arrematar a participação maciça de imigrantes portugueses dentro das maltas de capoeira por três factores distintos: primeiro, os portugueses eram a esmagadora maioria dos estrangeiros na cidade e formavam uma boa parte da população trabalhadora. Em segundo lugar, a vida cultural das camadas urbanas mais empobrecidas em Lisboa e nas maiores cidades de Portugal aproximava-se bastante da cultura urbana das incipientes cidades brasileiras do século XIX. A cultura escrava carioca somada ao mundo do 'fadista' lusitano produziu uma simbiose do Rio de Janeiro dos últimos decénios do século XIX e que até hoje marca a alma da cidade. A proximidade de condições de vida e trabalho e os laços de solidariedade tecidos pelo infortúnio e pela miséria sugerem ser a capoeira muitas vezes o elo fundamental entre culturas separadas por quilómetros de oceano e séculos de história. Irmanados na mesma desdita, africanos, crioulos e portugueses no Rio de Janeiro pós-1850 demonstraram aos seus contemporâneos e aos homens do futuro quanto a cultura poderia ser transformada pelos seus agentes mais humildes.
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Analíticos de Periódicos Biblioteca da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais
P.46 (Browse shelf) Available

A presença de imigrantes, principalmente portugueses, e homens brancos nas maltas da Corte do segundo reinado era sinal da riqueza e da complexidade da cultura da capoeira no Rio do século XIX. Hábil o bastante para sobreviver a décadas de feroz perseguição e flexível o suficiente para incorporar os elementos mais díspares e de origens mais diversas, a capoeira demonstrou nestes anos a sua força como 'porta de entrada' na cidade para estranhos, forasteiros e desamparados. Italianos, argentinos, paraguaios, alemães, norte-americanos, chilenos, franceses, espanhóis, uma babel de nacionalidades diversas escondia-se nas sombras da capoeiragem. Construída por africanos em terras brasileiras, a capoeira vai ter o seu destino marcado pelo carácter cosmopolita da capital do império. Podemos arrematar a participação maciça de imigrantes portugueses dentro das maltas de capoeira por três factores distintos: primeiro, os portugueses eram a esmagadora maioria dos estrangeiros na cidade e formavam uma boa parte da população trabalhadora. Em segundo lugar, a vida cultural das camadas urbanas mais empobrecidas em Lisboa e nas maiores cidades de Portugal aproximava-se bastante da cultura urbana das incipientes cidades brasileiras do século XIX. A cultura escrava carioca somada ao mundo do 'fadista' lusitano produziu uma simbiose do Rio de Janeiro dos últimos decénios do século XIX e que até hoje marca a alma da cidade. A proximidade de condições de vida e trabalho e os laços de solidariedade tecidos pelo infortúnio e pela miséria sugerem ser a capoeira muitas vezes o elo fundamental entre culturas separadas por quilómetros de oceano e séculos de história. Irmanados na mesma desdita, africanos, crioulos e portugueses no Rio de Janeiro pós-1850 demonstraram aos seus contemporâneos e aos homens do futuro quanto a cultura poderia ser transformada pelos seus agentes mais humildes.

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