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Os hábitos alimentares inadequados e o sedentarismo são considerados as principais causas de<br/>doenças crónicas não transmissíveis, entre as quais se incluem a obesidade, a diabetes mellitus tipo 2<br/>(DM2), as doenças cardiovasculares (DCV), a hipertensão arterial (HTA) e vários tipos de cancro. A<br/>obesidade é um problema de saúde pública, com sérios impactos sociais e económicos. A Organização<br/>Mundial de Saúde (OMS), considerando a importância que esta patologia tem na saúde mundial,<br/>desenvolveu uma estratégia global onde a alimentação e atividade física (AF) têm papel principal. É,<br/>portanto, essencial o contributo de uma alimentação saudável e equilibrada, assim como a prática<br/>regular de AF, sendo estes fatores essenciais para a prevenção destas patologias. Apesar dos inúmeros<br/>estudos desenvolvidos sobre estas temáticas, existem em Portugal vários grupos populacionais cuja<br/>avaliação urge fazer. A população reclusa é um grupo vulnerável, com um risco aumentado de<br/>malnutrição, consequência da sua fraca condição de saúde e de outros fatores sociais. Neste estudo<br/>procuramos caraterizar uma amostra de reclusos portugueses, relativamente à prevalência de excesso<br/>de peso em meio prisional, síndrome metabólica (SM), ingestão nutricional e AF.<br/>Métodos:<br/>Convidamos a participar no estudo todos os homens de 3 estabelecimentos prisionais (EP) do norte do<br/>país. Aceitaram participar 362 (30% do total de indivíduos convidados). Recolhemos dados sócio<br/>demográficos e de estilo de vida (idade, habilitações literárias, situação jurídico penal, trabalho no EP,<br/>hábitos tabágicos). Recolhemos também dados antropométricos (peso, altura e perímetro da cintura).<br/>O índice de massa corporal (IMC) foi calculado e categorizado de acordo com a classificação de IMC da<br/>OMS. Os homens com pré-obesidade e obesidade foram agrupados numa só categoria (definida como<br/>excesso de peso) para análise comparativa com o grupo sem excesso de peso.<br/>Para avaliação da ingestão nutricional foi utilizado um questionário de frequência de consumo<br/>alimentar (QFA), validado para a população portuguesa, e foi determinada a prevalência de<br/>inadequação nutricional com base nas recomendações da OMS e do Food and Nutrition Board. A<br/>avaliação dos parâmetros clínicos (pressão arterial sistólica (PAS), pressão arterial diastólica (PAD),<br/>concentração plasmática de glicose, colesterol HDL (HDL) e triglicerídeos (TG) foi realizada através da<br/>Carla Alexandra Gomes Afonso 9<br/>recolha dos dados no processo clínico individual interno de cada recluso. A AF foi avaliada utilizando a<br/>versão curta do International Physical Activity Questionnaire (IPAQ)<br/>Resultados:<br/>Obtivemos dados válidos em 362 indivíduos, com uma média de idades de 37,4 anos (dp=11,6). O grau<br/>de escolaridade predominante é o 2º ciclo (33,1%). No que diz respeito à situação jurídico-penal, 67%<br/>dos reclusos são condenados, não se registando variações significativas entre os dois grupos de<br/>homens considerados (com e sem excesso de peso). Quanto ao trabalho, verificamos que a maioria<br/>dos homens não desempenham uma atividade laboral dentro do EP (53%).<br/>Da totalidade dos reclusos que participaram no estudo, 8% têm baixo peso, 47,5% são<br/>normoponderais, 34% têm pré-obesidade e 10,5% são obesos.<br/>Quando analisamos os parâmetros clínicos, verificamos que são os homens com excesso de peso que<br/>apresentam valores mais elevados de PAS (média=158,1 dp=14,6 vs. média=119,1, dp=11,8 mmHg),<br/>PAD (média=102,6, dp=13,2 vs. média=78,9, dp=12,1 mmHg) e glicose plasmática (média=108,2,<br/>dp=9,5 vs. média=96,7, dp=12,6 mg/dl), sendo as diferenças estatisticamente significativas, entre os<br/>dois grupos estudados (p<0,001).<br/>Relativamente à prevalência de SM, verificamos que 20,2% dos reclusos cumprem os critérios de SM,<br/>e são os indivíduos com excesso de peso os que mais contribuem para este valor (32,3% vs. 10,4%,<br/>p<0,001).<br/>A média do total de ingestão de energia é de 2473 Kcal (dp=724), e são os indivíduos com excesso de<br/>peso os que ingerem mais calorias, embora não se registando diferenças estatisticamente significativas<br/>entre os 2 grupos estudados. A análise da ingestão média de colesterol, fibra e micronutrientes não<br/>revela quaisquer diferenças significativas entre os dois grupos de reclusos avaliados, com exceção do<br/>cálcio, que apresenta uma ingestão significativamente superior nos reclusos com excesso de peso.<br/>Observamos elevadas prevalências de inadequação para vitamina K e molibdénio (100%), vitamina E<br/>(94,5%), fibra (92,3%), magnésio (89,2%), folato (86,7%), iodo (69,9%), cálcio (57,2%) e vitamina D<br/>(53,9%).<br/>Quando analisamos os reclusos quanto à AF, verificamos que, com exceção da AFVigorosa (AFV), os<br/>homens sem excesso de peso têm valores médios mais elevados de AF, comparativamente com os<br/>homens com excesso de peso (IPAQ_AFWalking média=458,6, dp=68,8 vs. média=451,3, dp=63,4,<br/>p=0,416; IPAQ_AFModerada (AFM) média=124,8, dp=16,3 vs. média=60,8, dp=6,6, p<0,001). Os<br/>homens com excesso de peso são mais inativos do que os homens sem excesso de peso, porém sem<br/>diferenças estatisticamente significativas. Verificamos igualmente que a totalidade da nossa população<br/>não é suficientemente ativa, já que não realizou AFM, numa semana, igual ou superior a 150 minutos,<br/>nem AFV igual ou superior a 60 min/sem.<br/>Conclusões:<br/>A maioria dos nossos reclusos é normoponderal, mas a percentagem de indivíduos com excesso de<br/>peso é elevada (44%). 20,2% dos reclusos apresentam SM.<br/>Todos os indivíduos apresentam ingestões inferiores ao recomendado para vitamina K, molibdénio,<br/>vitamina E, fibra, magnésio, folato, iodo, cálcio e vitamina D. A população estudada não é<br/>suficientemente ativa, apresentando valores de AFM e AFV inferiores aos recomendados.<br/>Como consequência da falta de estudos nesta área em particular, estes resultados devem ser<br/>observados como um ponto de partida para futuras investigações nesta população específica. |